Restrepia brachypus

 

Na aula de hoje vou falar de uma maravilhosa orquídea originária da região norte da América do Sul. E, para tanto, conto com a participação muito especial de três brilhantes orquidófilas curitibanas, a Clorinda Valentini, a Roseane Cosenza Moraes, a Sandra Dias Bakonyi , e do fantástico Jorge Gastin, residente no município de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, conceituado naturalista e exímio fotógrafo da natureza. Realmente quatro grandes amigos que muito admiro, e aos quais agradeço pela permissão para uso de suas fotos que tão bem ilustram o tema do dia.

Então ao trabalho, é hora de falar de uma orquídea espetacular. Uma planta de pequeno porte e com lindas e exóticas flores que encantam por suas formas e cores. Uma planta que gosta de temperaturas amenas e por isto é muito cultivada na região sul do Brasil. Estou me referindo à Restrepia brachypus…

 

… uma joia da região andina

 

Restrepia (abreviatura: Rstp.), é um gênero botânico pertencente à família Orchidaceae, descrito em 1816 pelo renomado botânico alemão Karl Sigismund Kunth (1788 – 1850), quando descreveu a espécie “tipo” do gênero, a Restrepia antennifera, já estudada neste blog.

 

Restrepia brachypus - Kunth JPG

Karl Sigismund Kunth

Imagem retirada da internet – Site:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Sigismund_Kunth

 

 

Para descrever esta planta Kunth se baseou em um exemplar encontrado em 1801, no sul da Colômbia, pelos coletores Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt (alemão), e Aimé Jacques Alexandre Goujaud Bonpland (Francês).

Por este motivo, em muitos documentos e artigos técnicos aparece a identificação deste gênero como Restrepia H.B.K  (Humboldt, Bompland, Kunth).

 

Kunth ficou mundialmente conhecido pelo trabalho pioneiro no estudo da sistemática das plantas dos continentes americanos, dedicando mais de 20 anos de sua vida à tarefa de classificar as mais de 70.000 espécies de plantas, que tinham sido recolhidas nas Américas por seus amigos coletores Humboldt e Bonpland.

A obra mais famosa de Kunth é um marco da literatura botânica, e foi publicada em sete volumes. O nome é fácil: “Nova genera et species plantarum quas in peregrinatione ad plagam aequinoctialem orbis novi collegerunt Bonpland et Humboldt”. Decoraram?

Pouco tempo após o seu falecimento, o governo alemão adquiriu sua maravilhosa coleção botânica, composta de aproximadamente 60.000 espécies, e atualmente boa parte destes exemplares estão expostos no Jardim Botânico de Berlim.

 

Restrepia brachypus - Jardim Botânico de Berlim JPG

Jardim Botânico de Berlim

Foto retirada da internet – Site:
www.jardiland.pt/jardim-botanico/o-jardim-botanico-de-berlim-um-dos-maiores-da-europa/

 

 

Este gênero é composto por aproximadamente 50 espécies, todas de crescimento simpodial e hábito predominantemente epífita, podendo ocasionalmente ser encontradas fixadas sobre rochas cobertas de musgo, vivendo de forma rupícula.

Habitam normalmente em regiões montanhosas de baixas temperaturas, localizadas em altitudes compreendidas entre 500 e 3000 metros, onde as constantes névoas proporcionam alto índice de umidade e uma luminosidade rarefeita em quase todo o ano.

A área de abrangência das espécies deste gênero se estende desde o sul do México até o norte do Peru, sendo Colômbia, Venezuela e Equador, seus principais redutos.

 

Restrepia brachypus - Ocorrencia genero JPG

Restrepia – Ocorrência

Imagem retirada da internet – Site:
http://www.imagui.com/a/imagenes-de-el-mapa-de-las-3-americas-cyEao8Exo

 

 

O nome deste gênero, Restrepia, é uma homenagem a José Manuel Restrepo Velez (1781 – 1863), político e historiador colombiano nascido em Envigado, cidade e município pertencente ao departamento de Antioquia, região metropolitana de Medellín.

 

Restrepia brachypus - Restrepo JPG

José Manuel Restrepo Velez

Imagem retirada da internet – Site:
en.wikipedia.org/wiki/José_Manuel_Restrepo_Vélez

 

 

Restrepo foi o primeiro a pesquisar a geografia e a ecologia da região andina de Antioquia, na região oeste da Colômbia, e se notabilizou por sua rápida ascensão política.

Ao fim da “Batalha de Boyacá”, contra os espanhóis, que culminou com a independência da Colômbia, Restrepo foi nomeado governador de Antioquia por Simón Bolivar que, junto com José de San Martin, foi um dos grandes líderes nas guerras contra o império espanhol.

 

Restrepia brachypus - Boyaca JPG

A  Batalha de Boyacá

Imagem retirada da internet – Site:
pt.wikipedia.org/wiki/Boyacá

 

 

Entre os tantos trabalhos de Restrepo, destaque para as seguintes publicações:

  • Ensayo sobre la geografía, producciones, industria y población de Antioquia – 1809.
  • Historia de la Nueva Granada – 1952.
  • Historia de la Revolución de la República de Colombia – 1858.

 

Para aqueles que desejam se aventurar na ate da hibridação, relaciono abaixo os gêneros pertencentes à subtribo Pleurothallidinae, no qual se encontra a Restrepia: Acianthera, Anathallis, Andinia, Anthereon, Barbosella, Brachionidium, Chamelophyton, Dilomilis, Diodonopsis, Dracula, Dresslerella, Dryadella, Echinosepala, Frondaria, Lepanthes, Lepanthopsis, Masdevallia, Myoxanthus, Octomeria, Phloeophila, Platystele, Pleurothallis, Pleurothallopsis, Porroglossum, Restrepiella, Scaphosepalum, Specklinia, Stelis, Teaguia, Tomzanonia, Trichosalpinx, Trisetella, Zootrophion e seus híbridos.

 

Em termos morfológicos, as plantas do gênero Restrepia são desprovidas de pseudobulbos, sendo constituídas de finos ramicaules, com folhas de formato elíptico, e as flores são suportadas por delgados pedúnculos originados na base das folhas.

Estas flores apresentam um formato muito interessante, como pode ser constatado na foto abaixo. Uma longa sépala dorsal, duas finas pétalas, duas grandes sépalas laterais fundidas, formando uma sinsépala, e um pequeno labelo.

 

Restrepia brachypus - Restrepia contorta JPG

Restrepia contorta

Imagem retirada da internet – Site:
http://orchidspecies.com/restcontorta.htm

 

 

E agora finalmente vamos ao estudo da planta do dia, a gloriosa Restrepia brachypus, descrita em 1886 pelo botânico alemão Heinrich Gustav Reichenbach (1823 – 1889).

Reichenbach foi um dos mais renomados orquidófilos da época e, até os dias atuais, muitos acreditam que ele foi o botânico mais importante para a orquidológia, atrás apenas de John Lindley.

 

Restrepia brachypus - Reichenbach JPG

Heinrich Gustav Reichenbach

Imagem retirada da internet – Site:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Heinrich_Gustav_Reichenbach

 

 

Reichenbach identificou, descreveu e classificou mais de mil espécies de orquídeas e, durante sua brilhante carreira, chegou a ser diretor do Jardim Botânico da Universidade de Hamburgo, na Alemanha.

É comum confundir seu trabalho com o de seu pai, que também foi um renomado botânico. Para facilitar a correta interpretação, em taxonomia geralmente aparece referenciado como Rchb. f., onde f = filius (filho), enquanto que os trabalhos de seu pai aparecem abreviados como Rchb.

 

Esta maravilhosa planta é originária da região norte da América do Sul, mais especificamente da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, onde vegeta de forma epífita em florestas sombrias e úmidas localizadas nas encostas da Cordilheira dos Andes, em altitudes compreendidas entre 1000 e 3200 metros.

 

Restrepia brachypus - ocorrencia especie JPG

Restrepia brachypus  –  Ocorrência

Imagem retirada da internet – Site:
https://www.todamateria.com.br/paraguai/

 

 

O principal centro de dispersão da Restrepia brachypus é a região leste dos Andes colombianos e equatorianos, em elevações superiores a 1600 metros.

 

Restrepia brachypus - Centro dispersão JPG

Restrepia brachypus  –  Principal centro de dispersão

Imagem retirada da internet – Site:
https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/cordilheira-dos-andes.htm

 

 

O nome da espécie, brachypus, deriva do grego, e significa “pé da coluna curta”, em uma referência ao formato do labelo da flor desta orquídea.

 

Sinonímia: Pleurothallis hawkesii; Renanthera striata; Restrepia antennifera subsp. striata; Restrepia hawkesii e Restrepia striata.

 

Planta de pequeno porte e crescimento simpodial, com rizoma curto e ramificado, e com raízes cobertas por tecido velame. Normalmente apresenta muitas raízes aéreas. É desprovida de pseudobulbos, sendo constituída de finos ramicaules monofoliados, de comprimento entre 8 e 15cm, e cobertos por uma fina bráctea. Na figura abaixo identifico as principais estruturas desta planta:

 

Restrepia brachypus - PLANTA JPG

Restrepia brachypus – Estruturas da planta

Propriedade e créditos fotográficos: Sandra Dias Bakonyi  (Curitiba – PR)

 

Suas folhas apresentam formato elíptico, são grossas, largas, coriáceas e conduplicadas (dobradas em duas partes sobre o eixo de simetria longitudinal). Em termos dimensionais apresenta comprimento variando entre 3,2 e 8,5cm, e largura entre 1,3 e 3,8cm.

As inflorescências são muito interessantes: delgados pedúnculos originados na base das folhas e de comprimento variando entre 4 e 7cm, suportando uma única flor de aproximadamente 5,5cm de diâmetro (contando desde a extremidade da sépala dorsal até a extremidade das sépalas laterais).

Esta flor apresenta uma longa sépala dorsal de formato triangular e com a ponta espessada. As pétalas são longas e filiformes (finas), terminando também em uma ponta espessa. As grandes sépalas laterais se fundem, formando uma estrutura chamada de sinsépala, que no caso da Restrepia é a parte mais vistosa da flor. Para terminar, um lindo e pequeno labelo de formato elíptico. Abaixo mostro ilustração destacando as citadas estruturas florais:

 

Restrepia brachypus - FLOR JPG

Restrepia brachypus – Estruturas da flor

Propriedade e créditos fotográficos: Jorge Gastin  (Nova Friburgo – RJ)

 

Embora raro, existem casos em que a sinsépala se divide, formando sépalas laterais separadas.

Em termos de cores um verdadeiro espetáculo com altíssimo poder de sedução. A sépala dorsal apresenta uma suave tonalidade de branco translúcido, caprichosamente desenhado com estrias longitudinais de cor que varia entre o vermelho e o púrpura, mesma cor aparente nas pétalas. A sinsépala é um show. Listras paralelas no sentido longitudinal, também de cor variando entre vermelho e púrpura, estampadas sobre uma base de cor amarela e com extremidade branca. No labelo, pintado de tonalidade mais intensa de amarelo, destaque para 3 traços longitudinais da mesma cor dos demais. Uma verdadeira obra-prima.

 

A citada informação sobre as cores da flor da Restrepia brachypus foi baseada na flor padrão desta orquídea, sendo que existe uma grande variedade de tamanhos, cores e até de formas, entre as plantas de diferentes regiões.

 

Por ser originária de uma pequena região geográfica, e pela ação predatória do homem, com a coleta irregular de exemplares para fins ornamentais e comerciais, Restrepia brachypus é uma das tantas orquídeas pertencentes ao temido rol das plantas com risco de extinção (Apêndice II). Esta lista é gerada pela CITES (inglês: Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora –  português: Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção).

 

Restrepia brachypus - CITES JPG

CITES – Logotipo

Imagem retirada da internet – Site:
https://mondodeirettili.blogspot.com/2012/04/cites-che-cose.html

 

 

Abaixo relaciono algumas recomendações para cultivo:

  • A melhor forma de cultivo é fixada em árvores, ou então em cascas, troncos ou galhos, e com muitas raízes expostas. Por ser uma planta oriunda de regiões de alto índice de umidade, sugiro ainda acrescer um pouco de esfagno junto às raízes no momento da amarração da planta.
  • Se sua opção for cultivo em vaso ou caixeta, então utilize um substrato confeccionado com partes iguais de casca de pinus, carvão vegetal e esfagno (os dois primeiros bem triturados).
  • Apesar de apreciar uma boa umidade, Restrepia brachypus não suporta raízes encharcadas. Portanto, se você optou por cultivo em vasos, utilize recipientes baixos, com pouco substrato e rápida drenagem.
  • Diminua o volume e a periodicidade das regas durante o inverno.
  • Gosta de uma boa sombra. 60% de sombreamento é o ideal.
  • Não esqueça de propiciar uma boa ventilação para sua planta. Isto é fundamental para o desenvolvimento da mesma e para afastar pragas, evitando as temidas doenças que atacam as orquídeas.
  • Por ser originária de elevadas altitudes de regiões andinas, esta planta aprecia baixas temperaturas. Procure cultiva-la em local com temperaturas amenas, algo entre 5 e 25 graus. Proteja sua planta nos dias quentes do verão.
  • Troque o substrato a cada período de 2 a 3 anos.
  • Adube periodicamente.
  • Uma característica interessante desta orquídea é a farta produção de keikis (mudas aéreas), o que facilita a divisão da planta e a propagação da mesma.

 

Aqui no sul do Brasil esta espetacular planta floresce normalmente no verão, e sua floração dura em média duas semanas. Por abrir flores em sucessão, esta orquídea chega a ficar três meses florida. Se bem cultivada esta planta pode nos brindar com mais de uma floração por ano.

 

A seguir relaciono algumas fotos ilustrativas, começando com as citadas fotos de meus amigos orquidófilos:

 

 

Restrepia brachipus - Clorinda - jan2019 (3)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Clorinda Valentini  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachipus - Clorinda - jan2019 (1)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Clorinda Valentini  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - Roseane M Cosenza Moraes - mar2019

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Roseane M. Cosenza Moraes  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachipus - Sandra Bacony - mar2019 (1)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Sandra Dias Bakonyi  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachipus - Sandra Dias Bakonyi - dez2018 (1)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Sandra Dias Bakonyi  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - Sandra Bockonyi

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Sandra Dias Bakonyi  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - Jorge Gastin - março2019 (1)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Jorge Gastin  (Nova Friburgo – RJ)

 

 

Restrepia brachypus - Jorge Gastin - março2019 (2)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Jorge Gastin  (Nova Friburgo – RJ)

 

 

Restrepia brachypus - Jorge Gastin - março2019 (3)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Jorge Gastin  (Nova Friburgo – RJ)

 

 

Restrepia brachypus - Jorge Gastin - março2019 (4)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Jorge Gastin  (Nova Friburgo – RJ)

 

 

E agora mais algumas fotos, estas de planta da minha coleção:

 

 

Restrepia brachypus - mar2019 (2)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Juan Pablo Heller  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - mar2019 (4)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Juan Pablo Heller  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - março2019 12 (1)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Juan Pablo Heller  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - março2019 12 (2)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Juan Pablo Heller  (Curitiba – PR)

 

 

Restrepia brachypus - março2019 12 (3)

Restrepia brachypus

Propriedade e créditos fotográficos: Juan Pablo Heller  (Curitiba – PR)

 

 

E com tantas lindas fotos hoje não precisei apelar para imagens da internet. Mais uma vez agradeço de coração aos amigos que permitiram o uso de suas fotos para ilustrar esta aula.

 

 

 

IMAGENS: fonte pesquisa GOOGLE

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IMAGES: GOOGLE search

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