Cyrtopodium saintlegerianum

 

O fator motivacional para a aula de hoje é um maravilhoso presente que ganhei de meu amigo Adir Blanc. São duas lindas mudas de uma das orquídeas mais fascinantes que conheço. Uma planta de grande porte, com grandes bulbos, e com magníficas inflorescências carregadas de flores espetaculares. É o Cyrtopodium saintlegerianum

 

… o charuto do Cerrado

 

Cyrtopodium é um gênero botânico pertencente à família Orchidaceae, composto por pouco mais de 40 espécies. Foi proposto em 1813 pelo renomado botânico e físico escocês Robert Brown (1773 – 1858).

Brown se notabilizou como coletor de plantas no sudoeste asiático e na Oceania. Suas mais brilhantes descobertas foram nas terras hoje conhecidas como Austrália, onde coletou, entre 1801 e 1805, perto de 4000 plantas, das quais mais da metade eram até então desconhecidas. Infelizmente, para ele e para a ciência, boa parte da sua coleção perdeu-se quando o navio Porpoise, que transportava as referidas plantas para Londres, naufragou no meio da viagem.

 

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Imagem retirada da internet – Site:
https://curiozzzo.com/2016/07/28/as-coisas-mais-curiosas-que-voce-nao-sabia-sobre-naufragios-no-rio-grande-do-norte/

 

 

O nome deste interessante gênero vem do grego: kyrtos, que significa “inclinado”, e podium, que significa “”, provável referência à inclinação do pé da coluna de suas flores.

Pelo formato e tamanho dos pseudobulbos, as diversas espécies de Cytopodium são popularmente chamadas de “orquídea-charuto”.

 

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Gif retirado da internet – Site:
http://www.laughinggif.com/gifs/d0x3z2snsm

 

As plantas deste gênero são naturais das Américas, na faixa que vai desde a Flórida (Everglades) até a Argentina. A grande maioria das espécies ocorre no Brasil, em praticamente todos os estados e em todos os biomas brasileiros, vegetando desde a região litorânea à floresta amazônica, em campos rupestres e grandes cadeias montanhosas, nas pradarias e campos gerais do sul do país.

Em termos de habitat as plantas deste gênero podem ser encontradas vegetando de forma epífita, terrestre, rupícula e até paludícula (planta ou animal que vive em terrenos pantanosos).

O porte dos Cyrtopodium é muito variável, porém, na maioria das vezes são muito robustos. A inflorescência é sempre vigorosa e abundante, brota da base do pseudobulbo, podendo ter de alguns centímetros a mais de 1 m de altura.

Como outros gêneros já estudados, os Cyrtopodium possuem um período anual de dormência, no qual estão desprovidos de folhas.

Agora a planta do dia, o magnífico Cyrtopodium saintlegerianum, que assim como seu parente próximo, o Cyrtopodium punctatum, é conhecido popularmente como “orquídea rabo de tatu”, “orquídea cola de sapateiro”, “orquídea cola de viola”, “sumaré da mata” ou simplesmente “sumaré”, que em Tupi-Guarani significa silvestre.

Esta planta foi descrita em 1885 pelo renomado botânico alemão Heinrich Gustav Reichenbach (1823 – 1889), e o nome da espécie foi escolhida para homenagear o botânico francês Saint Leger.

Muitos acreditam ser Reichenbach o botânico mais importante para a orquidológia, atrás apenas de John Lindley.

Reichenbach identificou, descreveu e classificou mais de mil espécies de orquídeas e, durante sua brilhante carreira, chegou a ser diretor do Jardim Botânico da Universidade de Hamburgo, na Alemanha.

Muitos confundem seu trabalho com o de seu pai, que também foi um renomado botânico. Para facilitar a correta interpretação, em taxonomia geralmente aparece referenciado como Rchb. f., onde f = filius (filho), enquanto que os trabalhos de seu pai aparecem abreviados como Rchb.

É uma das espécies de maior porte dento deste gênero, e é uma das poucas de hábito predominantemente epífita. Pode ser encontrada em uma extensa área dentro do território nacional. Vegeta normalmente no bioma Cerrado, sendo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul os principais centros de dispersão.

 

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Biomas

Imagem retirada da internet – Site:
http://planetabiologia.com/os-principais-biomas-brasileiros-resumo/2/

 

 

As mudas que ganhei de meu amigo Adir são oriundas de sua chácara, em Cerro Azul, belo município cercado de montanhas, e localizado 90 quilômetros ao norte de Curitiba.

Conhecida como a terra da laranja, Cerro Azul pertence ao Vale da Ribeira, região que abrange alguns municípios do sul de São Paulo e do leste do Paraná, e que abriga mais da metade do que restou de nossa Mata Atlântica. Em 1999 o Vale da Ribeira foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

 

 

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Vale do Ribeira (no mapa acima Cerro Azul corresponde à região 28)

Imagem retirada da internet – Site:
http://servconcontabil.com.br/cidades/frame.html

 

 

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Cerro Azul – PR

Imagem retirada da internet – Site:
http://www.guiadoturismobrasil.com/cidade/PR/811/cerro-azul

 

 

Com frequência o Cyrtopodium saintlegerianum é encontrado vegetando em troncos de palmeiras conhecidas como macaúba (Acrocomia aculeata).

Só por curiosidade, além do citado apelido, esta palmeira é conhecida regionalmente por diversos nomes populares: bocaiuva, boicaiuva, chiclete-de-baiano, chiclete cuiabano, coco-baboso, coco-de-espinho, coco-macaúba, macacauba, macaíba, macaibeira, macaiba, macajá, macajuba, macaúba, macaúva, mocajá, mucaia, mucajá e mucajaba. Decorou?

 

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Macaúba  (Acrocomia aculeata)

Foto retirada da internet – Site:
www.flickr.com/photos/mercadanteweb/8241005711

 

 

Sinonímia: Cyrtopodium punctatum var. saintlegerianum.

No centro-oeste brasileiro, os pantaneiros utilizam a viscosa mucilagem extraída dos pseudobulbos de Cyrtopodium saintlegerianum, como cola para diversas atividades artesanais, entre as quais se destaca a Viola-de-Cocho, um instrumento musical típico do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

 

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Viola-de-Cocho

Imagem retirada da internet – Site:
https://violadecochoart.wordpress.com/2013/04/25/viola-cocho-artesanal/

 

 

Os mesmos pantaneiros atribuem diversas propriedades medicinais a esta planta, utilizando a mesma na forma de chá para o trato de doenças respiratórias, e na forma de unguento para ajudar na cicatrização de feridas na pele, abscessos e furúnculos.

É uma planta de grande porte e forma de crescimento simpodial. Rizoma robusto e normalmente enterrado, com grossas raízes que tem as típicas funções de fixação e nutrição, além de raízes secundárias, chamadas de pneumatóforas (*), e que funcionam como uma rede, aumentando a capacidade da planta recolher detritos (poeira, insetos mortos, etc), que irão se transformar em adubo.

(*) Raízes pneumatóforas são comuns em plantas do gênero Aviccenia, que vivem em solos encharcados e manguezais. Estas raízes crescem rente à superfície, através de projeções eretas, visando auxiliar na troca de gases da planta com o meio.

 

Cyrtopodium saintlegerianum 1

Detalhe das raízes pneumatóforas de Cyrtopodium saintlegerianum

Planta de minha coleção

Crédito fotográfico:  Juan Pablo Heller

 

 

Exemplo de plantas do gênero Aviccendia

Foto retirada da internet – Site:
http://de.academic.ru/dic.nsf/dewiki/119308

 

 

Os pseudobulbos do Cyrtopodium saintlegerianum são de formato fusiforme, podendo chegar a 80cm de comprimento, e são recobertos por grossas bainhas fortemente aderidas. As folhas brotam na metade terminal dos bulbos e nascem de forma alternada sobre estes. São finas e de formato lanceolado, chegando a ter 30cm de comprimento.

O Cyrtopodium saintlegerianum é uma planta caducifólia, ou seja, perde suas folhas em determinadas épocas, ficando com os pseudobulbos “desnudos”.

A inflorescência é do tipo paniculada e abundante… simplesmente espetacular. Hastes eretas e ramificadas que brotam da base dos pseudobulbos, e que podem chegar a um metro de comprimento, carregando dezenas de flores ressupinadas. Há registros de hastes com mais de cem flores.

As flores possuem entre 4,0 e 4,5cm de diâmetro e não são perfumadas. As sépalas são de cor amarela, com algumas pintas de cor marrom avermelhado em sua base. Já nas pétalas estas cores se invertem com uma total predominância do marrom avermelhado. O labelo mantém a coloração do conjunto em partes equivalentes, e apresenta lobo frontal ondulado. Um show.

Para cultivo deixo as seguintes dicas:

  • Pelo porte da plante sugiro cultivo em vaso plástico ou caixeta, e de preferência rasos.
  • Para substrato recomendo uma mistura típica para plantas epífitas combinando partes iguais de pedra brita, casca de pinus e carvão vegetal.
  • Deixe as raízes pneumatóforas expostas. Não cubra elas com substrato.
  • Utilize vasos com boa drenagem e cultive a planta em local bem ventilado.
  • Esta espécie precisa de muita luminosidade. Sugiro cultivo a pleno sol ou com sombreamento máximo de 30%.
  • Esta planta é originária de regiões caracterizadas por dias secos e quentes, e noites frescas com incidência de um bom índice de umidade. Recomendo temperaturas entre 10 e 35 graus.
  • Ainda, esta planta está acostumada a um longo período de estiagem no inverno. Diminua o volume das regas nesta estação.

 

Aqui na região sul floresce normalmente no começo da primavera, e a floração dura em média 30 dias.

Seguem algumas fotos ilustrativas:

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum - Adir Blanc - 1 - 12 hastes

Cyrtopodium saintlegerianum (planta com 12 hastes florais)

Propriedade e crédito fotográfico:  Adir Blanc

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum - Adir Blanc - 2

Cyrtopodium saintlegerianum

Propriedade e crédito fotográfico:  Adir Blanc

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum - Juraci J Muraro Durigan - 1

Cyrtopodium saintlegerianum

Propriedade: Juraci J. Muraro Durigan

Crédito fotográfico:  Josélio Durigan

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum - Juraci J Muraro Durigan - 2

Cyrtopodium saintlegerianum

Propriedade: Juraci J. Muraro Durigan

Crédito fotográfico:  Josélio Durigan

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum 2

Cyrtopodium saintlegerianum (planta que ganhei de meu amigo Adir Blanc)

Crédito fotográfico:  Juan Pablo Heller

 

 

Cyrtopodium saintlegerianum 3

Cyrtopodium saintlegerianum (planta que ganhei de meu amigo Adir Blanc)

Crédito fotográfico:  Juan Pablo Heller

 

 

 E a seguir relaciono algumas fotos retiradas da internet:

 

 

 

Resultado de imagem para Cyrtopodium saintlegerianum

Foto retirada da internet – Site:
http://www.plantasonya.com.br/orquideas-e-bromelias/orquidea-cyrtopodium-saintlegerianum.html

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Foto retirada da internet – Site:
http://www.panoramio.com/photo/80135483

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Foto retirada da internet – Site:
http://cooperorchids.com/produto/cyrtopodium-saintlegerianum/

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Foto retirada da internet – Site:
http://cacadordeorquideas.blogspot.com.br/2013/10/genero-catacetum.html

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Foto retirada da internet – Site:
www.youtube.com/watch?v=c-CMbEsMB_Y

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Foto retirada da internet – Site:
http://picssr.com/search/cyrtopodium/page5

Resultado de imagem para Cyrtopodium saintlegerianum

Foto retirada da internet – Site:
http://picssr.com/search/cyrtopodium/page22

 

 

 

 

 

IMAGENS: fonte pesquisa GOOGLE

Este blog é dedicado a pessoas que, como eu, amam e cultivam orquídeas. Meu objetivo com este trabalho é conhecer pessoas, divulgar e trocar informações sobre estas plantas.

É uma atividade amadora e sem fins lucrativos.

Se você encontrar alguma foto de sua autoria neste blog, e desejar a remoção, por favor envie um e-mail para  que a mesma seja retirada imediatamente. Obrigado.

 

IMAGES: GOOGLE search

This blog is dedicated to people who, like me, love and cultivate orchids. My goal with this job is meeting people, disseminate and exchange information on these plants.

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10 pensamentos sobre “Cyrtopodium saintlegerianum

  1. Olá, encontrei aqui em São Mateus/Esp. Santo um Cyrtopodium Holstii, muito lindo, e é muito parecido com este aí. As flores são um pouco mais marronzinhas, no lugar do amarelo. Gostei de saber mais sobre esta espécie.

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    • Boa tarde Alessandro. Não sei de qual espécie você está falando, mas a maioria delas permite reprodução pelo processo de estaquia. Veja a aula recente na qual falei sobre o Epidendrum zoosterifolium. Nessa aula expliquei detalhadamente os procedimentos. Um grande abraço.

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